terça-feira, 18 de junho de 2013

Apartamento de Momentos

 "Entra pra ver
 Como você deixou o lugar
 E o tempo que levou pra arrumar
Aquela gaveta" (Cícero - Açúcar ou Adoçante?)



A calçada parece mais fria quando não tem ninguém pra pisar. Sentado, olhando pelas nuvens em pleno céu nublado, considerando fatos fadados a falhar, continuo a repetir a mesma doença que eu tento empurrar pra fora de casa. Pensei que voar fosse fácil, amarrar um balão nos dedos e apenas sentir o vento. Não é. Eu vim de novo embora, esperando que as coisas que eu desejasse eu conseguisse alcançar. Falha nova, vida nova, é isso o que dizem por aí. Apesar de chorar no Natal, nas ruas da cidade todo dia é carnaval. Quem vê ao longe, pensa que problemas não existem. Mas não.


A garotinha, que brinca alegremente na balança, apanha de seu pai quando ele bebe, que é quase todo dia. A idosa sentada no banco da praça, jogando pipocas para os pombos, tem uma doença terminal. O casal jovem ali, se beijando num canto isolado, segundos atrás terminaram o namoro de três anos. E você me pergunta porque as coisas são confusas? A garotinha aceita por medo, a idosa indo embora não é segredo e aqueles lábios se encostando são apenas falsos beijos esperando que a felicidade volte. É um beijo de adeus,o parque não virá amanhã.


E eu aqui, de longe, viajando em pensamentos melancólicos, esperando que as máscaras sejam apenas detalhes do jeito que a natureza é. Volto pra casa, tiro os sapatos e fecho a porta. Casa vazia novamente, recados na caixa eletrônica, riscos e rabiscos na lista telefônica. Muita gente de lá eu tirei, e outras eu sei que vou tirar. Tem sido uma tortura deitar no sofá, se machucando com pesadelos fingindo ser sonhos. Pensei que a melancolia ia pegar as malas ao me deitar, mas parece querer assistir um filme antes. Não a convidei, apenas ofereci um café, e o pior que ela aceitou.


Na metade do filme ela já dormiu, claro, escolhi logo aquele que mostra a minha vida. Deixo ocorrer a lágrima e escorrer a farsa, que é deixar ela por aqui. Pendurei na parede alguns olhares que eu gostaria de reencontrar, e nos espinhos das rosas de primavera está trechos de canções que nunca mais quero escutar. Então, quantas horas levam para o meu minuto encontrar com o teu? Quem sabe se você esteve se relembrando do meu café, lembrando dos dias de manhã e como seria o amanhã. Tenho certeza que esteve chorando na sua janela.


O jardim de casa já está todo morto, assim como alguém que está dentro de mim. Sinto-me um pouco desastrado, deixar as coisas irem de qualquer jeito, enquanto as fardas e o cansaço dos meus pensamentos e as farsas que deixem no cimento da minha calçada. Já passou um meio-dia, o meu meio não faz parte do meu dia. Resolvo dar mais uma volta pela cidade, que queima como carvão e álcool sem parar. Carros não param de parar, passos são compassos de rotinas, e olhares de lares que eu sei que você não quer visitar. Machuca não ser constado na definição de balão feito de solidão.


E eu me questiono,pra onde vai a chuva que eu mando por palavras? Pra onde vai todo aquele amor não correspondido, aonde vai aquilo que não se pode falar e ninguém consegue escutar? Contos de fadas tendem a ser a nova marketing. E essa marketing, tem sido o novo refúgio de quem não consegue se expressar. Faz tempo que eu não sei como é me sentir importante, ver um sorriso libertador de uma ditadura comandada por sentimentos falsos e lágrimas esparramadas no asfalto.


Sinto-me como um céu sem cor, esperando que lápis coloridos façam seu trabalho. Alguns balões vem me visitar às vezes, esquecendo que os ares não foram feitos para se pousar. Esperando um retardo, maltrato as palavras para que elas se sintam tão só, como eu e resolvam me abandonar assim como todo mundo, deixando um vago no meu peito. Mal consigo respirar, parece que algo trancou a minha garganta, e parece que se fixou, e se for arrancado, vai deixar infeccionado. Parece uma história parecida de um coração de um amigo meu.


Volto novamente para aquilo que chamam de casa. Parece que essa chuva ainda passa nos mesmos 198 canais da minha tv, parece que os papéis estão tentando ser os azulejos da minha cozinha, lembra? daqueles que eu costumava de chamar de canção? Então. Memórias estão escondidas por detrás do pó dos pratos que eu costumava usar para as visitas. As coisas tem ficados esquisitas, tenho desperdiçado muito oxigênio enquanto lembro de faces que estão apenas em capas de revistas, e não tem mais um olhar.  Jurei que tinha mensagem no celular, mas é só olhar de novo pra ver que faz tempo que ninguém faz uma visita. No meu coração.


Deixei a garagem meio bagunçada, cheio de ferramentas que servem para arrumar nada, cheio de odor de lugar nunca usado. Deixei lá também umas coisas meio idiotas, era lá que eu costumava costurar meus sonhos, quando alguém o quebrava, era lá aonde eu deixava pra depois fazer retalhos nas minhas ações, e por último deixo meus troféus, para que eles nunca se vão para o céu. Bem-vindo ao meu doce e vazio apartamento de momentos.

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